voce nao é um, voce é uma multidao de pessoas

Você já sabe o que deveria fazer.

Na verdade... você sabe há anos.

Então por que você simplesmente não consegue se permitir fazer?

Você faz aquela promessa:

“Segunda-feira eu começo.”

“Dessa vez vai.”

“Agora é pra valer.”

Mas existe alguma coisa dentro de você...

silenciosa...

quase imperceptível...

que parece já ter decidido que você não vai conseguir.

E então você chama isso de fraqueza.

De preguiça.

De falta de força de vontade.

Você pensa que talvez simplesmente não queira aquilo o suficiente.

Mas não é nada disso.

Existe alguém dentro de você votando contra a sua decisão.

E, repetidamente...

essa parte vence.


É assim que parece quando traímos a nós mesmos.

Você jura que acabou.

Jura que nunca mais vai fazer aquilo.

E, pouco tempo depois...

observa a sua própria mão fazendo exatamente aquilo que prometeu não fazer.

E talvez a razão pela qual isso continue acontecendo não seja um defeito seu.

Talvez exista uma parte dentro de você...

pequena...

assustada...

congelada na idade em que alguma coisa aconteceu pela primeira vez.


Essa é uma das ideias centrais do livro No Bad Parts — Não Existem Partes Ruins, do terapeuta Richard Schwartz, criador do modelo chamado Internal Family Systems, ou Sistema Familiar Interno — IFS.

Depois de trabalhar com milhares de pessoas, Schwartz chegou a uma conclusão que pode parecer estranha...

até você começar a perceber isso acontecendo dentro da sua própria mente.

Você não é apenas uma pessoa.

Dentro de você existe uma multidão.

E algumas das partes que parecem estar sabotando a sua vida...

podem ser justamente aquelas que estão tentando, desesperadamente, proteger você.

Hoje eu quero mostrar para você:

por que talvez você não seja um único “eu”, mas vários;

os três tipos de partes que podem estar conduzindo sua vida sem que você perceba;

por que muitas das suas tentativas de “consertar a si mesmo” podem acabar fortalecendo justamente aquilo que você quer eliminar;

e qual é o movimento que pode começar a colocar fim nessa guerra interior.

Preparado?

Então vamos começar.


VOCÊ NÃO É UMA ÚNICA VOZ

Comece observando uma voz.

Aquela voz dentro da sua cabeça.

Talvez, quando eu disse agora há pouco “consertar a si mesmo”, alguma coisa dentro de você tenha reagido.

Talvez tenha pensado:

“Lá vem mais uma conversa de terapia...”

Talvez tenha ficado curiosa.

Talvez tenha criticado.

Segundo o modelo de Schwartz, aquela reação não representa necessariamente a totalidade de quem você é.

Ela pode ser uma parte de você.

Todo o modelo do IFS parte de uma ideia que parece estranha...

até você começar a observá-la funcionando.

A sua mente não funciona necessariamente como uma única unidade, com uma única vontade.

Imagine uma casa cheia de pessoas.

Cada membro dessa casa tem uma idade.

Um medo.

Uma história.

E uma função.

Na maior parte dos dias, uma ou duas dessas partes assumem o volante.

Elas falam usando a sua voz.

E você nem percebe que está completamente identificado com elas.

Aquela angústia que aparece no domingo à noite...

talvez não seja simplesmente:

“Eu sou ansioso.”

Talvez exista uma parte de mim que está ansiosa.

A confiança que você sente depois de uma ótima reunião?

Outra parte pode ter assumido a frente.

Aquela voz às duas da manhã enumerando tudo o que existe de errado com você?

Outra parte.

Durante toda a sua vida, talvez você tenha colocado todas essas vozes dentro de uma única palavra:

EU.

Mas o trabalho de Schwartz começa justamente quando você começa a separá-las.

Porque, quando consegue observar uma parte sem acreditar que ela representa tudo aquilo que você é...

o jogo começa a mudar.


Observe você mesmo da próxima vez que precisar tomar uma decisão.

Uma parte diz:

“Aceite esse emprego.”

Outra diz:

“Fique onde está.”

Você chama isso de indecisão.

Mas olhe mais de perto.

São duas posições.

Duas vozes.

Dois membros da mesma casa discutindo na mesa da cozinha.

E você no meio deles, acreditando ser uma única pessoa confusa incapaz de decidir.

Talvez você não esteja simplesmente confuso.

Talvez existam várias partes votando...

e você nunca aprendeu sequer o nome de quem está votando.


COMO RICHARD SCHWARTZ CHEGOU A ESSA IDEIA

Schwartz não começou seu trabalho tentando provar essa teoria.

Ele trabalhava como terapeuta familiar com pessoas que enfrentavam transtornos alimentares.

E começou a perceber algo interessante.

Seus pacientes diziam repetidamente:

“Uma parte de mim quer comer.”

“Uma parte de mim se odeia por comer.”

Ele ouviu aquilo tantas vezes que começou a considerar que talvez não fosse apenas uma maneira de falar.

Então fez algo aparentemente estranho.

Começou a conversar diretamente com essas partes.

A parte que queria comer compulsivamente.

A parte que queria impedir a pessoa de comer.

E, para sua surpresa...

essas partes respondiam.

O que aparecia não era simplesmente um sintoma.

Cada parte parecia ter uma função.

Uma história sobre por que existia.

E, muitas vezes, uma idade emocional na qual parecia ter ficado presa.

A parte que levava uma mulher à compulsão alimentar não estava necessariamente tentando destruí-la.

Ela estava tentando anestesiar um sentimento que parecia grande demais para suportar.

Enquanto isso, outra parte acreditava que restringir a comida era a única maneira de mantê-la segura.

Duas partes da mesma casa...

em guerra uma contra a outra...

e as duas convencidas de que estavam salvando aquela pessoa.


E aqui aparece uma ideia extremamente poderosa:

Se você consegue observar uma parte...

conversar com ela...

então essa parte não representa a totalidade de quem você é.

É algo que existe dentro de você.

E aquilo que existe dentro de você pode ser compreendido e liderado...

em vez de simplesmente obedecido.

O problema é que ninguém nos ensinou que essas partes existem.

Então podemos passar décadas permitindo que elas conduzam nossa vida...

confundindo os medos delas com o nosso destino...

e chamando todo esse comitê interno por uma única palavra:

“EU.”


OS TRÊS TIPOS DE PARTES

Schwartz percebeu que esse sistema interno tende a se organizar em três grandes funções.

Quando você começa a reconhecê-las...

fica difícil olhar para o próprio comportamento da mesma maneira.

Porque você começa a flagrá-las em ação.


1. OS EXILADOS

O primeiro grupo é aquele para o qual quase ninguém quer olhar.

Os exilados.

São as partes mais jovens.

Partes que receberam a ferida original.

A humilhação.

O abandono.

A rejeição.

Aquele momento em que você concluiu:

“Eu sou demais.”

“Eu não sou suficiente.”

“Ninguém vai me amar.”

“Existe alguma coisa errada comigo.”

Essas partes podem permanecer emocionalmente congeladas naquela idade.

Ainda carregando aquela dor.

Ainda vivendo, de alguma forma, naquele momento.

Talvez você já saiba onde uma das suas vive.

É aquela memória da qual você desvia antes mesmo que ela consiga se formar completamente na sua mente.

Talvez tenha acontecido no parquinho.

Na cozinha.

Na escola.

Em um telefonema.

Em uma conversa.

O momento em que você aprendeu alguma coisa sobre si mesmo...

e passou os anos seguintes tentando provar que aquilo não era verdade.

Você não quer voltar até lá.

Mas esse movimento automático de fugir da memória não significa necessariamente que aquilo foi superado.

Talvez seja justamente o sistema inteiro fazendo seu trabalho:

manter a porta do porão fechada.

O exilado não desaparece simplesmente porque você se recusa a olhar para ele.

Ele pode continuar influenciando sua vida justamente porque nunca foi ouvido.

Você mantém essa parte trancada porque acredita que o sentimento que ela carrega seria insuportável.

E então grande parte daquilo que sua mente faz todos os dias pode começar a girar em torno de uma única missão:

Nunca deixe o exilado sair.

Nunca sinta aquilo novamente.

Hábitos.

Defesas.

Rotinas.

Controle.

Talvez boa parte dessa estrutura tenha sido construída ao redor de uma criança interior banida...

que você tem medo de ouvir.

E isso nos leva ao segundo grupo.


2. OS GERENTES

Os gerentes são as partes que tentam administrar sua vida para impedir que o exilado apareça.

O crítico interior que destrói você...

antes que outra pessoa tenha a oportunidade de fazer isso.

O perfeccionista que nunca consegue considerar um trabalho terminado.

O planejador que está acordado às três da manhã ensaiando o dia seguinte.

A pessoa que tenta agradar todo mundo...

que entra em uma sala, observa cada pessoa e muda a si mesma para caber naquele ambiente.

Leia mentalmente essa lista novamente.

Talvez você tenha chamado algumas dessas coisas de:

“Minha personalidade.”

Mas talvez sejam seus guardas noturnos.

Partes exaustas...

cumprindo uma função que assumiram quando você ainda era pequeno.

Tentando impedir que uma antiga ferida volte à superfície.

Imagine o quanto alguns desses gerentes estão cansados.

Alguns podem estar trabalhando há trinta anos...

sem férias.

Sem descanso.

O crítico interior talvez não seja cruel simplesmente porque gosta de machucar você.

Ele pode acreditar que, se parar de criticar...

você ficará relaxado demais.

Vai errar.

Será exposto.

Será humilhado novamente...

como aconteceu no passado.

É uma parte assustada tentando cuidar de uma criança que talvez nunca tenha recebido a proteção de que precisava.

E ela está usando a única ferramenta que conhece:

controle.

Parece disciplina.

Parece exigência.

Parece padrão elevado.

Mas talvez seja simplesmente um guarda...

que nunca recebeu a notícia de que a guerra acabou.


MARCUS

Imagine Marcus.

42 anos.

Competente no trabalho...

e silenciosamente infeliz.

Ele relê cada e-mail quatro vezes antes de enviar.

Ensaia conversas no chuveiro.

Em toda a sua vida adulta, nunca sentiu realmente que um trabalho estava terminado.

Ele apenas o abandona quando chega o prazo.

As pessoas dizem:

“Marcus é muito detalhista.”

Marcus chama isso de prisão.

O que pode estar conduzindo Marcus é uma parte gerente que aprendeu, por volta dos nove anos, que a única maneira de fazer as críticas dentro de casa pararem...

era fazer tudo perfeitamente.

Então essa parte criou uma regra:

Perfeição = segurança.

Trinta anos depois...

ela ainda cobra esse preço em cada e-mail...

mesmo vivendo agora em um mundo no qual ninguém está mais dando notas para ele.

Essa parte não está necessariamente quebrada.

Ela é leal.

Está tentando proteger aquele menino de nove anos que só queria que os adultos parassem de encontrar defeitos nele.

E Marcus passou anos tentando “relaxar”...

tentando demitir justamente a parte que ainda acredita que relaxar significa se colocar em perigo.


3. OS BOMBEIROS

E então temos o terceiro grupo.

Aquele que destrói muitas das suas segundas-feiras.

Os bombeiros.

Quando alguma coisa consegue passar pelos gerentes...

e a dor do exilado começa a aparecer...

os bombeiros arrombam a porta.

A missão deles é simples:

APAGUE O FOGO. AGORA.

Não importa o preço.

A compulsão.

A bebida.

Horas rolando a tela do celular durante a madrugada.

A explosão de raiva que faz você dizer algo que não pode retirar.

A fantasia na qual você desaparece durante três horas.

O bombeiro não está pensando nas consequências.

Um incêndio não para para analisar as consequências.

Ele só quer fazer a dor desaparecer...

nem que seja por mais uma hora.

Você provavelmente conhece muito bem essas partes.

Porque são justamente os comportamentos que você mais odeia em si mesmo.

Aqueles que prometeu abandonar...

cem vezes.

E aqui está uma das ironias mais dolorosas desse sistema:

**Quanto mais violentamente você luta contra o bombeiro...

mais violentamente ele pode reagir.**

Porque ele não está lutando por diversão.

Ele acredita que existe uma dor atrás dele capaz de destruir você.

Quando você o ataca...

não elimina a razão pela qual ele existe.

Você apenas cria mais uma emergência para ele administrar.

E é exatamente aqui que toda a estratégia de “consertar a si mesmo” começa a desmoronar.


A GUERRA CONTRA VOCÊ MESMO

É isso que talvez você tenha feito durante grande parte da vida.

Você sente o bombeiro se movimentar.

O desejo.

A compulsão.

O crítico.

A necessidade de anestesiar alguma coisa.

E imediatamente diz:

“Esse é o inimigo.”

Então você ataca.

Disciplina.

Vergonha.

Culpa.

Uma dieta radical.

Uma promessa de Ano-Novo.

Você tenta eliminar aquilo pela força.

E durante uma semana...

talvez duas...

funciona.

Você se sente poderoso.

“Finalmente consegui.”

Até que aquilo volta.

E parece voltar ainda mais forte.

Porque talvez você nunca tenha atacado simplesmente um mau hábito.

Talvez tenha atacado um protetor.

Uma parte posicionada diante de uma ferida...

fazendo o único trabalho que aprendeu a fazer.

E quando você ataca um guarda...

ele não pede demissão.

Ele reforça a defesa.

Porque agora existem duas ameaças:

A antiga dor da qual ele sempre tentou proteger você...

e você, tentando arrancá-lo do posto.

Toda guerra de autodesenvolvimento travada contra você mesmo pode acabar ensinando aos seus próprios protetores:

“Você também é perigoso.”

Então eles se defendem ainda mais.

Talvez você não tenha simplesmente fracassado na disciplina.

Talvez o mecanismo tenha feito exatamente aquilo para o qual foi criado:

proteger a ferida de você.


ELENA

Elena tem 31 anos.

Todo domingo à noite ela promete:

“Essa semana eu não vou beber.”

“Agora eu vou colocar minha vida nos trilhos.”

“Dessa vez é sério.”

Segunda-feira...

ela resiste.

Terça-feira...

também.

Na quinta...

alguma coisa começa a crescer dentro dela.

Uma dor antiga que ela nem consegue nomear.

Uma pressão no peito.

E, na sexta-feira...

ela já tomou três taças de vinho...

e está mergulhada em culpa.

Então promete:

“Domingo eu começo novamente.”

Elena acredita que o problema é a bebida.

Mas, dentro desse modelo...

a bebida pode ser o bombeiro.

Por baixo do vinho existe uma parte de Elena com oito anos de idade.

Sentada no alto da escada...

ouvindo os pais gritarem um com o outro na cozinha.

Naquele pequeno corpo, ela aprendeu que aquela sensação crescendo dentro do peito poderia engoli-la inteira...

se algum dia permitisse senti-la completamente.

Aquela menina de oito anos é o exilado.

O vinho não é necessariamente o inimigo.

O vinho é um balde de água...

jogado sobre uma casa que está silenciosamente pegando fogo desde que ela tinha oito anos.

E todo domingo...

Elena declara guerra justamente contra a parte que está tentando apagar esse incêndio.

Depois olha para o teto e pergunta:

“Por que eu simplesmente não consigo parar?”

Porque parar talvez nunca tenha sido o verdadeiro objetivo daquela parte.

O objetivo era:

proteger a menina de oito anos.


POR QUE O LIVRO SE CHAMA “NÃO EXISTEM PARTES RUINS”

É justamente por isso que Schwartz deu esse título ao livro.

Ao longo de décadas trabalhando com milhares de pessoas, ele diz não ter encontrado uma parte essencialmente má.

Ele encontrou...

boas partes presas em trabalhos terríveis.

Ele encontrava críticos internos extremamente cruéis.

Vozes que diziam diariamente:

“Você não vale nada.”

E então perguntava a essa parte:

“Do que você tem medo que aconteça se você parar?”

E muitas vezes a resposta era algo parecido com:

“Se eu parar, ele vai criar esperança.”

“Vai tentar alguma coisa.”

“E será destruído novamente, como aconteceu da última vez.”

Talvez o crítico nunca estivesse simplesmente tentando atacar você.

Talvez estivesse tentando preparar você para um impacto...

que acredita que ainda vai acontecer.

Porque existe outra coisa importante sobre essas partes:

elas podem permanecer congeladas no tempo.

O crítico.

O bombeiro.

O exilado.

Todos podem permanecer presos emocionalmente no lugar onde assumiram aquela função.

Eles não receberam a notícia de que você cresceu.

Que agora você possui recursos que não tinha aos sete anos.

Que aquela situação acabou.

Para aquela parte...

ainda pode ser o pior dia da sua vida.

E a missão dela continua sendo:

Nunca deixe aquilo acontecer novamente.

Talvez você não esteja sendo sabotado por inimigos.

Talvez esteja sendo conduzido por crianças interiores...

que nunca descobriram que a guerra terminou.


O QUE VOCÊ NÃO CURA PODE CONTINUAR

E aqui existe algo que ultrapassa a nossa própria vida.

As feridas para as quais nunca olhamos podem não permanecer somente conosco.

Schwartz chama aquilo que uma parte carrega de burden — um fardo.

São crenças extremas que podem surgir durante momentos dolorosos:

“Eu não sou suficiente.”

“Amar é perigoso.”

“Não dependa de ninguém.”

“Não demonstre fraqueza.”

E esses fardos podem atravessar gerações.

Um pai que nunca teve permissão para chorar...

pode criar um filho que aprende, mesmo sem ninguém dizer uma palavra, que sentimentos são ameaças que precisam ser controladas.

Uma mãe conduzida pelo perfeccionismo...

pode criar uma filha cujo crítico interno, décadas depois, soa exatamente como a voz da mãe.

Nem todas as suas partes começaram necessariamente com você.

Algumas podem carregar histórias aprendidas dentro da família.

Protetores passando de uma geração para outra...

como móveis antigos.

Cada geração protegendo uma ferida que talvez nunca tenha conseguido enxergar.

Por isso, terminar essa guerra interna não diz respeito somente a você.

Também diz respeito ao que você deixará para aqueles que vierem depois.


AGORA, OBSERVE

Perceba alguma coisa neste exato momento.

Talvez, enquanto você me escutava...

uma parte sua tenha julgado tudo isso.

“Isso é papo de terapia.”

Talvez outra tenha pensado:

“Meu Deus... eu precisava ouvir isso.”

Talvez uma parte tenha julgado você justamente por precisar ouvir.

Não tente corrigir essa reação.

Não discuta com ela.

Apenas...

observe.

Ela aconteceu sozinha.

Você não decidiu conscientemente:

“Agora vou pensar isso.”

O pensamento simplesmente apareceu.

Talvez seja uma parte falando através da sua própria voz...

de uma maneira tão rápida e familiar...

que você passou a vida inteira confundindo aquela voz com o som do seu próprio pensamento.

Mas existe algo ainda mais importante.

Por um segundo...

você conseguiu observar a voz...

em vez de simplesmente ser a voz.

Percebe a diferença?

Existe um pequeno espaço aí.

Talvez meio segundo.

Mas guarde esse espaço.

Porque esse espaço...

é a porta de saída.


ENTÃO, QUEM ESTÁ OBSERVANDO?

Se você não é simplesmente todas essas partes...

quem acabou de observá-las?

Quem estava olhando?

Schwartz chama isso de:

Self.

O Eu essencial.

Não outra parte.

Mas aquilo que existe por baixo delas.

E aqui está uma das ideias centrais de todo o trabalho dele:

Você não precisa construir o Self.

Não precisa merecê-lo.

Não precisa treiná-lo.

Não precisa passar dez anos instalando alguma coisa que não existe.

Ele já está aí.

Sempre esteve.

E começa a aparecer quando uma parte consegue recuar...

nem que seja apenas um centímetro.

Schwartz observou isso acontecer repetidamente.

Quando uma pessoa conseguia se separar de uma parte por alguns instantes...

algo mudava.

A voz ficava mais suave.

Os ombros relaxavam.

Uma calma que ninguém havia mandado aparecer...

simplesmente chegava.

E certas qualidades surgiam repetidamente:

Calma.

Curiosidade.

Compaixão.

Confiança.

Uma estabilidade que não está tentando corrigir nada.

Não está tentando vencer ninguém.

Está apenas presente...

e segura o suficiente para finalmente ouvir aquela parte assustada...

em vez de lutar contra ela.

Você não precisa fabricar isso.

É aquilo que permanece...

quando a multidão dá um passo para trás.

Talvez você já tenha sentido isso.

Apenas nunca soube o nome.

Aquela clareza estranhamente tranquila no meio de uma crise real...

quando todo mundo está em pânico...

e alguma coisa dentro de você fica silenciosa e simplesmente faz aquilo que precisa ser feito.

Ou quando um amigo está sofrendo...

e você finalmente para de tentar consertá-lo.

Você simplesmente se senta ao lado dele.

Completamente presente.

E descobre que...

aquilo era justamente a ajuda de que ele precisava.


DESFUSÃO — CRIANDO ESPAÇO ENTRE VOCÊ E A PARTE

Esse movimento de dar um passo para trás tem um nome no IFS:

unblending.

Podemos entender como uma desfusão, uma separação momentânea entre você e a parte.

Quando você está fundido com uma parte...

o medo dela é o seu medo.

A voz dela é a sua voz.

Não existe espaço entre vocês.

É assim que podemos passar grande parte da vida...

sem perceber.

Desfundir-se não significa eliminar a parte.

Não significa derrotá-la.

Não significa consertá-la.

Significa apenas recuar o suficiente para conseguir enxergá-la ao seu lado...

em vez de senti-la vestindo a sua própria pele.

E, a partir desse lugar...

você pode finalmente fazer a pergunta que começa a terminar a guerra.

Existem quatro passos.


PASSO 1 — ENCONTRE A PARTE NO CORPO

Da próxima vez que uma parte assumir o volante...

observe primeiro o corpo.

A compulsão.

O crítico.

A ansiedade.

A raiva.

A espiral mental.

Onde ela está?

Aperto no peito?

Calor subindo pelo pescoço?

Um buraco no estômago?

Pressão nas costelas?

As partes não existem apenas como teoria.

Elas aparecem através de sensações físicas.

E muitas vezes o corpo é o primeiro lugar onde conseguimos encontrá-las.


PASSO 2 — DESFAÇA A FUSÃO

Diga silenciosamente para você mesmo:

“Uma parte de mim está sentindo isso.”

Em vez de:

“EU ESTOU FURIOSO.”

Experimente:

“Uma parte de mim está furiosa.”

Em vez de:

“EU SOU ANSIOSO.”

Experimente:

“Uma parte de mim está sentindo ansiedade.”

Percebe?

Existe uma diferença enorme.

A palavra “parte” cria espaço.

Você não está negando o sentimento.

Você está apenas reconhecendo:

**o sentimento está em mim...

mas ele não representa tudo aquilo que eu sou.**


PASSO 3 — TROQUE HOSTILIDADE POR CURIOSIDADE

Este provavelmente será o passo que você mais terá vontade de ignorar.

Porque nosso reflexo normalmente é:

lutar...

ou consertar.

Mas, dessa vez, não faça nenhum dos dois.

Pergunte àquela parte:

“Do que você tem medo que aconteça se você parar de fazer isso?”

E depois...

espere.

Não discuta com a resposta.

Não tente explicar por que ela está errada.

Não tente ser racional.

Escute.


PASSO 4 — AGRADEÇA

Quando a resposta aparecer...

agradeça genuinamente.

Essa parte pode estar fazendo um trabalho que ninguém mais quis fazer...

desde antes de você conseguir se lembrar.

Sem descanso.

Sem reconhecimento.

Sem gratidão.

Você não obriga um bombeiro a se aposentar lutando contra ele.

Você mostra a ele...

que o incêndio terminou há muitos anos.

E permite que, finalmente...

ele coloque o balde no chão.


VAMOS VER ISSO NA PRÁTICA

É sexta-feira.

Elena sente vontade de pegar a garrafa.

Aquela pressão aparece novamente embaixo do peito.

O roteiro antigo seria:

Lutar.

Perder.

Beber.

Odiar a si mesma.

Repetir.

Mas agora existe outro caminho.

Primeiro...

ela encontra a sensação no corpo.

A pressão abaixo das costelas.

Depois ela cria espaço:

“Uma parte de mim quer beber.”

E, de repente...

existe um centímetro de distância onde antes não existia nada.

Então ela fica curiosa.

Pergunta:

“Do que você tem medo que aconteça se eu não beber?”

E uma resposta aparece...

silenciosa...

com oito anos de idade:

**“O sentimento vai ficar grande demais...

e ninguém vai vir me ajudar.”**

[PAUSA LONGA]

Existe algo importante aqui.

Na primeira vez em que você tentar conversar com uma parte...

outra pode aparecer imediatamente.

Uma parte cética.

Impaciente.

“Isso é ridículo.”

“Não está acontecendo nada.”

“Isso não vai funcionar.”

Tudo bem.

É apenas outra parte fazendo seu trabalho.

Não lute contra ela também.

Apenas perceba:

“Uma parte de mim acha isso ridículo.”

E peça que ela recue um pouco...

somente o suficiente para você continuar ouvindo.

Esse processo não é uma única porta que você atravessa.

É um corredor cheio delas.

Alguns dias você conseguirá abrir apenas uma.

E tudo bem.

Elena não pega o vinho.

Ela permanece com aquela parte que estava aterrorizada porque acreditava que ninguém viria.

E, dessa vez...

alguém vem.

Ela.

[PAUSA]

Uma única sexta-feira não conserta tudo para sempre.

É apenas uma sexta-feira...

em que a guerra não aconteceu.

Mas imagine juntar várias dessas sextas-feiras.

Momentos em que aquela menina de oito anos finalmente recebe uma resposta...

em vez de ser anestesiada.

E, aos poucos...

o bombeiro pode finalmente fazer aquilo que talvez esteja querendo fazer há vinte anos:

descansar.


E SE VOCÊ NÃO ACREDITAR EM “PARTES”?

Você não precisa acreditar literalmente em uma família inteira vivendo dentro da sua cabeça.

Se essa linguagem parece estranha para você...

mantenha o mecanismo e deixe os nomes de lado.

Quando uma emoção toma conta completamente de você...

seu sistema entra em um modo rápido e reativo.

Você reage antes de pensar.

Mas quando consegue nomear aquilo:

“Uma parte de mim está sentindo isso...”

você cria um espaço entre o sentimento...

e a ação.

Existe uma expressão conhecida na psicologia:

“Name it to tame it.”

Algo como:

“Dê um nome para poder regular.”

Você não está esmagando a emoção.

Está mudando sua relação com ela.

É por isso que lutar pode falhar.

A luta mantém você grudado naquela reação.

A curiosidade...

abre espaço.


O PREÇO DE NÃO FAZER ISSO

Muitas pessoas nunca aprendem nada disso.

Passam quarenta anos usando o mesmo martelo...

contra a mesma parte.

O mesmo crítico.

A mesma compulsão.

O mesmo silêncio frio com as pessoas que amam.

E chamam tudo isso de:

“Meu jeito.”

“Minha personalidade.”

“Eu sou assim.”

A parte não desaparece.

Ela vai ficando tão presente...

tão automática...

que um dia você deixa de perceber que é uma parte.

Você acredita que aquilo é você.

Talvez esse seja o verdadeiro preço da guerra.

Não simplesmente perder para ela...

mas desaparecer dentro dela.

E, sem perceber...

entregar as mesmas armas para a próxima geração.


VOLTANDO AO COMEÇO

Então volte comigo para o início deste vídeo.

Todas aquelas versões de você que disseram:

“Segunda-feira eu começo.”

Todas aquelas guerras que você declarou contra si mesmo...

e silenciosamente perdeu.

Talvez o problema nunca tenha sido simplesmente falta de força de vontade.

Talvez você estivesse apontando a arma...

para o alvo errado.

Para uma parte assustada...

fazendo tudo aquilo que aprendeu para manter você seguro.

Não existem partes ruins.

Existem partes tentando fazer coisas boas...

presas em trabalhos extremamente difíceis...

esperando que alguém suficientemente estável finalmente pergunte:

“Por quê?”

[PAUSA]

E quero terminar deixando uma coisa com você.

Talvez ainda hoje...

daqui a uma hora...

ou esta noite, quando estiver sozinho...

você perceba aquela voz novamente:

“Idiota.”

“Você estragou tudo.”

“Se controla.”

“O que há de errado com você?”

Talvez você fale assim consigo mesmo tantas vezes...

que nem perceba mais.

Mas hoje...

quando ouvir essa voz...

pare.

Não tente expulsá-la.

Não discuta.

Não diga para ela calar a boca.

Faça apenas uma pergunta:

“Do que você está com tanto medo?”

[PAUSA LONGA]

Talvez aquilo que você chamou durante anos de seu crítico interior...

possa se transformar em uma porta.

E agora que você sabe que essa porta existe...

talvez seja muito mais difícil deixar de enxergá-la.

Não é o amor que é ciumento. Olhe, observe, repare novamente. Quando sente ciúmes, não é o amor que o faz sentir ciumento; o amor nunca conheceu nada acerca do ciúme. É o ego que se sente magoado, é o ego que se sente competitivo, numa luta constante. É o ego que é ambicioso e deseja ser maior que os outros, que deseja ser alguém em especial. É o ego que começa por se sentir ciumento, possessivo – porque o ego só pode existir com posses.

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